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A filosofia da vida de F. Nietzsche e a arte em clinicar

Não tenho a intenção nesse artigo de me referir à arte-terapia como instrumento terapêutico. Meu intuito é relacionar o nome de F. Nietzsche à arte em clinicar. Tanto Nietzsche como a psicoterapia de base fenomenológica têm em comum a existência afirmativa da vida.

Nietzsche questiona a racionalidade como modelo de conhecimento e traz para o cenário da vida, a arte como sendo a atualização do vivido. Com o conceito de ?Amor Fati?, que seria amor ao destino, traz uma provocação que é um ?sim à vida?, uma aceitação da vida em sua inteireza. A vida precisa ser amada em tudo em cada instante. Nada deve ser negado e todo mal e todo bem são essenciais. Cada ação deve ser maximizada e levada ao seu peso máximo. Todos os recursos de que precisamos só podem ser encontrados no aqui-e-agora. A vida como arte é a única possibilidade que temos de criar, inventar e transformar o que aparentemente está ?estagnado?. Porque vida é movimento, é devir.

A vida, segundo Nietzsche, não nos oferece segurança. Ela é, em si, um jogo de forças: ?Tudo que ocorre, todo movimento, todo vir-a-ser é um constatar de relações de graus de forças, um combate?(…)?A vida é o excesso que se configura, mas apenas provisoriamente? (Viviane Mosé, 2005).

Nós estamos a serviço da vida, no sentido de, ao nos expandirmos, potencializá-la. O contrário disso é o niilismo, que se apresenta sob a forma de moralidade, distorção que gera falta de vitalidade pelo não-realizado. É a vontade de permanência.

Para que a vida pulse em todos nós, é preciso abrir mão das pseudo-seguranças e aprendermos a nos sustentar nas incertezas. A impossibilidade de viver a impossibilidade é o que Deleuze chamou de neurose. Existe um ponto em que as coisas não ?andam? ? por causa do passado ou por nossa falta de coragem? ?O processo psicoterapêutico de orientação fenomenológica–existencial também está a serviço da vida, de forma a privilegiar a facticidade e a afetividade do existir? (Afonso Lisboa, 2004). Se terapeuta e cliente, cada um em suas multiplicidades, abrirem espaço para todas as perspectivas, o processo estará ancorado na vivência artística, criativa e potente.

Nosso corpo, em relação ao mundo, é limitado, mas também se expande por meio de nossas sensações e sentidos. Nietzsche diz que nós criamos o mundo, atribuindo a ele uma interpretação particular, a partir do que nossos sentidos apreendem. Por isso, na relação terapêutica, não se pode partir de uma idéia de verdade absoluta. Ela precisa acontecer na interseção das forças que se encontram no terapeuta e no cliente (encontro dialógico). É no evento presente, em que nós experimentamos a emoção capaz de gerar movimento e ação, que se promove a alegria do contato. ?Há que se esquecer o verdadeiro como algo outro que não seja o vivido. Instalá-lo como critério do verdadeiro, do real e com critério ético do bom? (…) ?o que idealmente interessa é a vivência vívida do vivido como vivência de consciência e o ser desdobramento ativo?. (Afonso Lisboa, 2004).

A relação terapêutica tanto é sentida em sua intensidade, como em morte. A clareza da provisoriedade de tudo que vive requer a atualização constante do vivido. É como se Nietzsche dissesse: a despedida definitiva (morte) pode ser a qualquer hora! Portanto, viva intensamente e fique alerta. Em o Nascimento da Tragédia, escrito em 1871, Nietzsche vê a arte como a única saída para o homem. Ele anuncia que ?o espírito científico deixe de ser ilimitado e sua pretensão a uma validade universal seja aniquilada; isto é, que o homem moderno se coloque na escola dos gregos para aprender a importância da música e do mito trágico, que tem o dionisíaco como matriz comum? (Roberto Machado,1997). 

?Apolo, o deus da bela forma, da escultura, do limite bem definido, da consciência individualizada e lúcida, da individualidade, é representativo dos impulsos humanos relativos à preservação do princípio de individualidade, da medida humana, da consciência e do eu individual. Dionísio, o deus do vinho, da música, da embriaguez, é representativo dos instintos humanos relativos à desmesura, à superação da medida, à superação dos limites individuais, de individualidade e da consciência individual? (Afonso Lisboa,2005). 

As duas forças conjugam-se: Apolo dando a medida e Dionísio, a intensidade.

O sentido trágico é exultação à vida, afirmando-a.

Nietzsche faz uma crítica à religião judaico-cristã e se contrapõe à idéia de Deus como criador e o além-mundo como promessa de recompensa. Em Assim falou Zaratustra, ?Nas Ilhas Bem Aventuradas?, ele diz: ?Dizia-se ‘Deus’, outrora, quando se olhava para mares distantes: mas, agora, eu vos ensino a dizer: ‘super-homem’ (…)?Podeis pensar um Deus? ? Mas é isto que significa o vosso desejo de verdade: que tudo se transforme no que pode ser humanamente visto, humanamente sentido! Deveis pensar, até o fim, os vossos próprios sentidos!?
(…)?Más e anti-humanas chamo todas as doutrinas do uno e perfeito e imóvel e sácio e imperecível?
(…) ?Todo o imperecível ? é apenas uma imagem poética! E os poetas mentem demais?
(…) ?Criar ? essa é a grande redenção do sofrimento, é o que torna a vida mais leve. Mas, para que o criador exista, são deveras necessários o sofrimento e muitas transformações? 

Nesses trechos, Nietzsche aponta que acreditar na idéia de um Deus que caiba na palavra, é transferir a responsabilidade de sua própria trajetória, ao mesmo tempo, que o homem se diminui. Para ele, o homem capaz de suportar sua criação, que enfrenta as adversidades e é capaz de criar novos valores, é super-homem. Posso criar um homem maior do que sou.

Na arte-terapêutica, o cientista é substituído pelo artista, o conhecimento pela sabedoria do contato. As coisas que existem, ditas em palavras, gestos e afetos, estão na ordem do vivido e do não explicado. Por isso, não segue uma orientação socrática, no sentido de vontade de verdade. O socratismo, no mundo ocidental, privilegiou o pensamento, desqualificando as forças organísmicas e os sentidos. Tornamo-nos obesos de cabeça e raquíticos de corpo, distanciando-nos de nossos sentidos, da vivência presente e do sentido do trágico como a força que nos move. 

O que nos importa é o erotismo pela superação, da possibilidade de romper com as formas, a partir das leis. Todo ser humano precisa de rituais, de contornos até que possa, eticamente, destruí-los para recriá-los. O mal da moralidade não é criar leis e normas e sim padronizá-las, sem levar em conta as idiossincrasias de cada um.

Como psicoterapeutas, não devemos reduzir a problemas as questões da existência. O que importa no nosso cliente é a sua grandiosidade, seu processo, sua ponte; o que faz, enfim, de sua obra. Toda doença deve servir para que o homem dê um salto para melhorar sua condição humana. É nesse ponto, que não devemos apenas tratar as doenças e curar. É preciso evoluir e superar-se e, com isso, aprender a ver o que é positivo no sofrimento e torná-lo produtivo, a serviço da vida. 

Bibliografia: 
Fonseca, Afonso H. L. ? Gestalt Terapia Fenomenológico Existencial ? ISBN ? 2005;
Mosé, Viviane ? Nietzsche e a grande política de linguagem ? Civ. Brasileira ? 2005;
Machado, Roberto ? Zaratustra Tragédia Nietzschiana ? Jorge Zahar Editor ? 1997;
Niezsche, Friedrich ? Assim Falou Zaratustra ? Civ. Brasileira ? 2003.

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