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Angústia e Ansiedade

O ser humano é filho de seu contexto de referência. O contexto de referência engloba a cultura, a geração, a família, a política, a economia, enfim, tudo que lhe atravessa e que acaba por lhe constituir. 

Ao contrário dos animais, não nascemos prontos para a vida. Ao contrário dos animais ,não nascemos com uma identidade. Tudo em nós é construído, remodelado. 

Um animal não questiona a vida e não sente os efeitos de seu contexto de referência como algo que lhe atravessa. Um animal não precisa dar sentido para vida, nós sim; e é na busca deste sentido que nasce a angústia. 

A angústia é condição de existência. A busca dos porquês já aparece na infância. Mas a criança tem a crença de que seus pais sabem tudo e isso alivia a angústia. Ela tem a quem recorrer. Os adultos descobrem que só tem como recorrer a si mesmos e ,nessa história ,muitas vezes se sentem confusos e regridem buscando fora de si as respostas para a sua dor. 

É claro que muitas vezes o trampolim para a dor é a condição de miséria, o desemprego, a dificuldade de conversas entre pais e filhos, etc. Tudo isso gera angústia. 

Porém, ela é mais que isso, ela é dor e libertação ao mesmo tempo. Ela não surge porque algo que gostaria que acontecesse não ocorreu, ela surge como condição de questionamento da própria vida e assim sendo, abre espaço para se buscar uma qualidade de vida melhor. 

A angústia é um convite ao homem para que ele olhe para si como um horizonte cuja paisagem é desenhada, em esboço, por suas próprias mãos. 

E este olhar causa dor, porque nos convida a renascer e qualquer nascimento dói, mudar de estado causa , a princípio, medo, muitas vezes pânico, mas também revela a força da plasticidade de nosso espírito e as inúmeras possibilidades de nossa jornada existencial. 

Um bebê ao nascer abandona um estado de ser para entrar num outro estado desconhecido. Nasce junto com ele a sua primeira angústia, seguida de ansiedade. Este sentimento está correlacionado a uma mudança biológica drástica, o coração pulsa, a busca de ar muda de lugar, passando a depender dele. O que antes vinha pronto passa a depender de sua atitude. 

O medo do novo se associa a mudanças corporais cujos efeitos chamamos de ansiedade. 

Muitas das vezes repetimos este padrão primário, quando sentimos medo, o coração acelera, a respiração falta. É uma marca que se reedita no decorrer da existência. 

Repetir este padrão é portanto, natural, faz parte do desenvolvimento do homem. E este desenvolvimento é marcado por muitos perigos, já que cada etapa de nossa maturação produz mudanças que geram ansiedade- mudanças biológicas e medo frente ao novo. 

Freud coloca que: 
“… no decorrer de nosso desenvolvimento os antigos fatores determinantes de ansiedade deveriam sumir, pois as situações de perigo correspondentes a eles perderam sua importância devido ao fortalecimento do ego.” 

Porém, ele também assinala que isso não ocorre de maneira determinada,tendo em vista que, muitas vezes, não atravessamos o processo de maneira saudável e além disso, nossa vida não é um projeto fechado,sempre teremos dores e sempre seremos de acordo com o tempo, somos seres do tempo e nossos próprios criadores. 

Perls assinala que vivemos tendo que fechar gestalts abertas, isto é, tentando costurar sentidos sempre novos no tecido infinito da vida. Estar saudável seria projetar-se adequadamente no que se faz presente, percebendo e incorporando o que se deseja ser. 

A questão que se levanta é quando este “ projetar-se” gera uma ansiedade paralisante e interpretações errôneas da realidade. Momento este da ajuda terapêutica. Sim, porque neste estado a pessoa não consegue se ouvir, se entender, se olhar, se lançar. Fica presa a tensão de seu estado, tendo correlatos físicos e mentais que dimensionam ainda mais sua agonia. 

O investimento na vida fica prejudicado, pois a energia foi desviada de seus projetos estagnou-se em seu corpo e/ou numa idéia a respeito da impossibilidade do mundo e de si próprio. 

E, como já foi dito, a ansiedade advinda da angústia, coloca em primeiro plano o mal estar consigo e com o mundo. Chama o homem para a sua singularidade, para o seu “eu”, para a responsabilidade em escolher e exercitar a liberdade da escolha. 

Ao mesmo tempo, convida-lhe a assumir por completo a insegurança de sua condição – a consciência da fragilidade, bem como lhe abre os olhos para o fato de que o sentido aparente das expressões de sua alma encobre outro, latente. 

Esta fragilidade seria um estado do espírito onde se tem medo de quebrar. Nos vemos como cristais, algo raro e indefeso, qualquer toque mais forte  pode quebrá-lo, mas um olhar profundo enxerga a sua beleza e vê que ele é multicolorido. 

Assim sendo, a fragilidade também traz força, mas precisamos saber olhar direito…O olhar se perde quando não se aceita o cristal e se busca uma rocha, quando brigamos com sua natureza. 

O olhar se perde quando não se aceita o buraco da angústia de ser um cristal e buscamos fora de nós um líquido mágico que fortaleça a estrutura frágil e tome a forma do cristal. Porém, o cristal continuará frágil e cedo ou tarde revelará que é cristal. 

Como dizia Renato Russo, em uma de suas músicas: “tudo é dor e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor!” 

É verdade e quanto mais se luta contra, mais se fere. Quanto mais não se aceita a condição, mais confuso fica o espírito. 

O processo terapêutico investigaria o que motiva as ilusões no homem e trabalharia a sua desconstrução, assinalando que o aprisionamento em sintomas, idéias falsas a respeito da vida e de si próprio apareceriam para mascarar este encontro, para fazer com que o homem fugisse da agonia que é ser responsável por sua existência. 

E é somente estando aberto à essência total e não disfarçada da angústia, que o homem tem a possibilidade de se abrir para a liberdade e encontrar o amor e a confiança em si mesmo. E a liberdade humana implica na escolha do destino que se quer abraçar como vida; implica em ser responsável por seu processo existencial, podendo,nesse processo, enxergar as cores multicoloridas do cristal que se é. 

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