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REICH, UMA LEITURA
Frinéa Souza Brandão e João Paulo Lyra da Silva
Reich sempre defendeu talentosamente a vida, a liberdade e a invenção.
Elizabeth Roudinesco no final de sua biografia sobre Lacan refere-se aos analistas independentes como os "praticantes do inconsciente" e os define como profissionais que não crêem mais na superioridade de uma técnica sobre outra. Segundo ela a fala dos analisandos mudou: "seu mal estar é mais visível e sua demanda de ajuda é tanto maior na medida em que são confrontados a cada dia com os poderosos ideais do êxito social, do consenso liberal, do fanatismo, do oculto e do cientificismo".
Reich deixou um legado clínico sólido, totalmente condizente com as demandas presentes. Não só praticou muito como refletiu sobre sua clínica ampliando-a e questionando-a. Cada descoberta que fazia gerava um novo olhar. Isso fez com que criasse elementos tanto teóricos quanto técnicos de transformação profunda e eficaz do ponto de vista prático.
Graças a esse olhar constantemente mutante criou uma visão energética do homem reterritorializando-o em seu corpo em sete segmentos. Dinamizou esses segmentos em dois movimentos básicos: a contração e a expansão energéticas, sendo todos os segmentos por elas percorridos. Contrações e a expansões moldadas na história do sujeito. Sujeito de si mesmo se sujeitado. Que cria uma formação corporal (couraça). Formação expressiva de sofrimentos muitas vezes permanentes e repetitivos.
Esses sofrimentos podem se manifestar de inúmeras maneiras. Que podem caracterizar o tipo, a origem e o quantum de sofrimento.
Todo o corpo é um canal de expressão e concomitantemente de comunicação energético-sensorial.
A comunicação energético-sensorial se dá em um campo que pode ser de si para si mesmo como pode ser de si para o outro. A preponderância, a função e a utilidade de cada uma dessas comunicações é que nos vai dar a leitura de uma determinada couraça. Na comunicação intrapsíquica (de si para si) vai se revelar àquilo que determinados autores chamam de estrutura (psicose, neuroses etc..). Na comunicação interpsíquica (de si para o outro) vai se desvendar o que Reich chama caráter. O grupal e cultural como o meio de construção desse sujeito vai nos expor a ideologia.
Para Reich, existem sete segmentos cada um desses tendo um órgão interlocutor relacional direto.
No primeiro segmento, o ocular, é o olho que cumpre a função de órgão interlocutor relacional direto. A couraça aponta dentre outras, para uma predisposição à psicose ou para uma psicose.
Se for aprisionada uma quantidade significativa de energia, ela não circula em quantidade suficiente pelos outros segmentos, isso por si só já gera uma dificuldade de comunicação.
Sendo o primeiro segmento de expressão energética comunicacional distancia a pessoa, desde os primórdios de vida da comunicação usual e casual, criando através da solidão uma forma própria de comunicação. Dentre outras dificuldades pode ajudar a pessoa a aprofundar em si mesma, criando uma percepção muito particularizada e caótica de suas emoções.
Preponderância de bloqueios energéticos no segundo segmento, o oral. A boca cumpre a função de principal ligação energética com o meio-ambiente. A couraça desse segmento pode apontar tanto para uma psicose, tendo, por exemplo, como uma característica marcante, a falta de outro, como para os transtornos de personalidade tendo, por exemplo, como uma característica marcante a voracidade, o outro que lhe é.
Preponderância de bloqueios energéticos no terceiro segmento, o cervical, aponta para transtornos de personalidade e de comportamento, onde aparecem como característica marcante jogos narcísicos. A leitura de caráter é a da generalidade narcísica, que perpassa todas as formas caracteriais. Ao outro não será permitida a particularidade distintiva, diz a couraça.
Preponderância de bloqueios energéticos no quarto segmento, o do peito, indicam tendências, ainda para os transtornos de personalidade e para os transtornos de comportamento e também para alguns tipos de neurose como a obsessiva compulsiva e, por vezes, a histeria. A leitura caracterial é a da preponderância de um bloqueio afetivo. O bloqueio afetivo, embora uma constante nos males psíquicos, aí assume o lugar do que seria o dito, representando um fenômeno próximo da alexitimia (ausência de palavras para a emoção).
Preponderância de bloqueios energéticos no quinto segmento, o diafragmático, aponta ainda para o campo dos transtornos de comportamento, e também para o das neuroses. O caráter mais encontrado é o masoquista. O sofrimento é o outro de si mesmo, memória forçada de um êxito não havido, revivido. Controle do indizível.
Do sexto poderíamos dizer o mesmo? As sensações viscerais, nossas possibilidades e necessidades aceptivas, em estase, denunciam um outro que aceito simbolicamente como outro maior que o outro seja. Recusa-se a ele a maiúscula que lhe mobilizaria o falo, permanecendo-se parado numa "aceitação" para a qual, portanto, por parado, não aceito o gesto (da aceitação).
O sétimo, o pélvico tem sua forma de expressão a sexualidade. Da sensação, emoção, fantasia não se chega ao gesto consentido. Sobrepasso da emoção no falo idealizado, não ideal. Dá para perceber o que os problemas de mobilidade levam a contrair.
As teias feitas com as marcas da vida nesses segmentos evidenciam uma tela, uma história vívida.
Nesse pequeno esboço percebemos o quanto Reich foi criativo. Essa reterritorialização dos sete segmentos foi criada em 1932. Outras teorias foram elaboradas por ele mais tarde, mas sempre tentando ajudar as pessoas a conquistar ou reconquistar sua autonomia, liberdade de expressão e responsabilidade sobre a vida.

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