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REFLEXÃO RETRÔ SOBRE A RETROFLEXÃO
Ricardo Paes de Figueiredo
Eu tinha uma máquina de escrever que, para os mais jovens que não a conheceram, é uma impressora que imprime ao mesmo tempo em que se digita. E estou dizendo isso por acreditar que somos como tais máquinas.
Somos o resultado da nossa própria trajetória enquanto organismos e mentes o que, no dizer do biólogo chileno Humberto Maturana, nos torna sistemas autopoiéticos ou auto-reguladores não disjuntos do “meio ambiente”. Ele vem demonstrando teoricamente que o organismo é o meio e o meio é o organismo. Ora, então somos aquilo que vivemos e como vivemos. Dizer, por exemplo, que somos o que comemos, o que lemos, como enxergamos o mundo e como nos colocamos nele, é admitir a idéia de um sistema nervoso fechado em um oikós que não apenas se constitui na interação do organismo com o meio e vice-versa, mas em sua interconstituição contínua ou autogeração bipolarizada entre partes de um mesmo organismo-sistema.
Estas foram as primeiras ilações que me ocorrem ao ler sobre a Retroflexão, de que trata a presente reflexão, onde a mesma é descrita como a capacidade de nos dividirmos em observador e observado – um dos postulados fundamentais de Maturana que diz “que tudo é visto a partir de um observador”. O que em princípio parece óbvio, vai juntar-se e fazer sentido com o que vou dizer mais adiante.
O referido fenômeno (retroflexão) constitui-se num dirigir a si mesmo impulsos tanto hostis quanto ternos, tanto um amor dedicado que lhe poderia ter sido negado na infância quanto um ódio àqueles que não lhe negaram esse amor, retroflexionado como culpa por desejar realizá-lo. Então me ocorreu uma sincronicidade junguiana: enquanto estou sendo submetido a cirurgias dentárias pré-implantodônticas, o que, naturalmente, me envolvem num devir retrô e que se encaixou como luva (de dentista) no tema que abordamos aqui.
Pensei na “fase oral canibal”, no bruxismo há muito diagnosticado, no masseteiro (ou masséter) espástico em tantas sessões de bioenergética, para refletir como, de algum modo, nos deixamos consumir antes do tempo (quer dizer, como filhos do tempo, por ele devorados, podemos cuidar para que o tempo não nos devore tão depressa). Ou, talvez, retroflexionando sobre o assunto, podemos fazê-lo deliberadamente, como uma inscrição, um texto que se tece enquanto se digita, um pé que faz o caminho que faz o pé, o arado que ara enquanto o estilete do escriba entalha a escrita que explica a escrita, o escriba, o estilete o arado, o pé, o caminho, a verdade e a vida – pregado pelos parafusos da implantodontia como Cristo! Se nos deixamos consumir antes do tempo, auto-antropofágicamente, nos devoramos imersos no tempo que estamos e somos.
Polster vai dizer que a retroflexão pode ser autocorretiva, neutralizando limitações e riscos reais. O que vai, ao fim das contas, conferir uma qualidade caracteriológica (ou seja, inscrita de algum modo no corpo, na couraça muscular do caráter, como diria Reich) é aquilo que se transforma em distanciamento crônico entre forças opostas dentro do indivíduo. E acrescenta então que “a suspensão temporária e sábia, da ação espontânea originalmente sadia, torna-se uma resignação insensível. O ritmo natural entre a espontaneidade e a auto-observação é perdido e a perda deste ritmo divide o homem em forças autolimitantes”.
Fiquei pensando também como essa Mente-Natureza (Bateson) é sábia: se autocorrige e busca o reequilíbrio continuamente. Quanto mais indivíduos adoecidos, ou quanto mais adoecimento é percebido pelo conjunto, mais surge quem se ocupe de encontrar alternativas terapêuticas ou autocorretivas. Agora fiquei na dúvida: quanto mais adoecidos, mais terapeutas surgem ou quanto mais surgem terapeutas mais gente adoece?
De qualquer modo, voltemos ao caminho para não perdermos o pé; se ficarmos filosofando muito, isso vira pós-doutorado. Se eu ficar me escarafunchando em excesso e em público... estou fritz!
Citando Polster: “Quando uma pessoa retroflete repetidamente, ela bloqueia as suas saídas para o mundo e permanece sob o controle de forças opostas, mas estagnadas. Por exemplo, se uma pessoa escolhe refrear o seu choro, sob as exigências de ter de viver com pais proibidores, ela não tem de continuar este sacrifício além dos seus anos de contato com eles. O problema principal do bem-viver é manter-se em dia com as possibilidades que existem, em vez de permanecer-se marcado o tempo todo por experiências que foram somente temporárias ou que podem ter sido simplesmente erros de percepção ou de intuição. Talvez ela somente pensou que tinha de refrear seu choro, quando na verdade ela não tinha que fazê-lo. Além do mais, pode ser que ela agora não tenha de fazê-lo, a despeito de originalmente ter tido ou não razão.”(pág. 89-90)
Os Polster nos falam dos dois níveis de toxicidade observáveis nas resistências à liberação do que foi retrofletido. Um mais suave, onde o “indivíduo faz para si mesmo no mínimo aquilo que ele precisa” e um outro mais severo onde a pessoa passa a viver num grande isolamento em relação aos outros e a si mesmo; tornando-se nada carinhosa consigo e com seu em torno.
Creio que a contribuição da Gestalt para a formação do psicólogo, independente da técnica que adote ou da área em que pretenda atuar, é inestimável. As diferentes contribuições teóricas disponíveis, a meu juízo, não precisam necessariamente ser excludentes, mas podem complementar-se, contribuindo para a composição de um quadro mais humanizado do que apenas um recorte ou olhar o permitiria. A própria Gestalt revela imbricadas relações e filiações com outras linhas e revela-se influente em experiências de eminentes profissionais não necessariamente filiados à sua escola.
Para concluir, sem a arrogância literal que representaria, de fato, uma conclusão, volto para a imagem de que somos máquinas de escrever. Queria dizer que somos, na realidade, “máquinas de inscrever”, pois à medida que nos inscrevemos (no real, no imaginário, no simbólico, enquanto mente-natureza, enquanto cidadãos na polis, etc) nos interconstituimos na e com a superfície que nos servimos como suporte – que é, ao final das contas, aquilo de que somos feitos.
Notas
Humberto Maturana, biólogo chileno e autor de obras como "A Ontologia da Realidade".
Do grego, oikós = "eco" esignifica "casa". Somos nossa própria casa.
POLSTER, Miriam [e] POLSTER, Erving. Gestalt terapia integrada. Belo Horizonte, Interlivros, 1979.

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